A TRINCHEIRA • J. Herculano Pires (Irmão Saulo)


A TRINCHEIRA •  J. Herculano Pires (Irmão Saulo)

É preciso tomar a trincheira. Mas não podemos tomá-la à baioneta nem arremessando granadas. Nossa batalha é a do sol que avança a jatos de luz, espancando as trevas e despertando a vida. O PONTO DE LUTA a que Chico Xavier se refere é o último reduto, a trincheira entranhada no solo. Os jatos de luz passam sobre ela sem conseguir penetrar nas suas profundezas. Mas os clarões a iluminam de momento a momento e, se persistirmos na luta, atingiremos o seu interior, chegaremos ao fundo escuro quando o sol estiver a pino.
Há qualquer coisa que lembra, nessa expressão feliz de Chico Xavier – ponto de luta – a conhecida expressão de Victor Hugo: point d'optique. Para Hugo o palco era o ponto de visão em que se concentrava no teatro a expressão da vida. Para Chico o ponto de luta é o lugar secreto em que se concentram, em nosso interior, de maneira aparentemente irredutível, os resíduos mais resistentes do nosso passado.
Cada grande batalha, em determinado setor de nossa renovação espiritual, acaba sempre nessa trincheira que parece inexpugnável. O Livro dos Espíritos nos ensina, na questão 660, a recorrer à prece nesses momentos difíceis, não com excesso de palavras, mas com firmeza de sentimentos.
Maria Dolores, com sua prece em forma de poesia, vem socorrer-nos através do exemplo. Não nos diz como orar, mas ora, ela mesma, extravasando a sua fé numa súplica em versos. Analisando esses versos verificamos, mais uma vez, que Maria Dolores, no seu panteísmo poético, serve-se dos fatos naturais para que as lições de Deus, através das coisas, nos toquem o coração e nos despertem a razão.
Uma prece assim, transbordante de sentimento puro e de confiança em Deus, vale mais do que a repetição de preces decoradas e mecanicamente repetidas. Nem todos somos poetas para exprimir nossos anseios num poema espontâneo como esse. Mas todos temos sentimentos e podemos acordar em nós o germe da fé para fazer uma súplica sincera. Então faremos o sol de nossa fé atingir o zênite e derramar sua luz no fundo da trincheira, eliminando o último ponto de luta na batalha íntima.
Artigo publicado originalmente na coluna dominical "Chico Xavier pede licença"  do jornal Diário de S. Paulo, na década de 1970.

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